de 26 a 30 de Março de 2008
O pão e o leite, ou modos de cruzar fronteiras.
A organização das memórias, mesmo das próximas, mesmo com o suporte das notas manuscritas, ocorre sempre com reflexos e reverberações numerosos e imprevistos. Pode então surgir a questão: como não articular as discussões temáticas nas mesas redondas com as sessões literárias, os debates internos do Comité Writers for Peace com a alegria do reencontro dos membros da família PEN?
Os escritores entendem-se melhor do que os políticos, em todo o caso deveriam inspirar estes últimos com exemplos – eis o que foi dito em várias versões ao longo dos quatro dias junto ao lago de Bled, tendo sido reiterado pelo presidente da República Eslovena Danilo Türk, na recepção oferecida aos 85 participantes, vindos de 26 países ou centros PEN.
O tronco comum de todas as preocupações, tematizações e intenções poderia resumir-se à pergunta: como cultivar a paz, não só através do conhecimento da História mas sobretudo do diálogo, mesmo quando este se revela difícil?
Hodili smo, hodili smo,
Vse tja do morja,
Cigavega morja?
[Continuámos, continuámos a andar.
Todo o caminho para o mar.
O mar de quem?], escreve a poeta Maruša Krese (que vive em Berlim, Graz e Ljubljana), num poema lido na sessão inaugural. Uma alma ibérica encontra ressonância no conhecido “se hace camino al andar”. E a temática das três mesas redondas incitava a caminhadas conjuntas. A permanente inquietação em torno do que é a consciência europeia repartiu-se aqui por dois aspectos: 1. filosófico-sociológico e 2. literário-cultural-civilizacional. A terceira mesa redonda centrou-se nas preocupações do Comité Writers for Peace, este ano em torno da questão: Como desenvolver uma atitude ética face à História como fonte de paz?
Falou-se pois a várias vozes das diferenças entre a UE e a consciência europeia: se ambas têm história, esta é mais rica e complexa mas não está de todo desligada daquela, na grande “árvore europeia” (na expressão de Igor Škamperle). Ali entroncariam não só os conflitos, as tensões e as guerras mas também a empatia, a solidariedade. (A propósito assegurava Amos Oz - que não estava presente – no seu breve mas acutilante tratado contra o fanatismo, que israelitas e palestinianos não iriam levar tanto tempo como os europeus para alcançar um compromisso pacífico, ou pelo menos de não agressão.) Sylvestre Clancier, presidente do centro do PEN francês, sublinhou o “esforço de consciência” que nos une a nós, europeus. Horia Gârbea (do Centro romeno) afirmou que “ser europeu é contar a história de Hamlet mas também a minha própria história”. Porque os valores europeus (citando ainda Igor Škamperle) seriam não apenas políticos, económicos e financeiros mas também “tradução, permuta de memórias e esquecimento”.
Na terceira mesa redonda questionou-se como aproveitar – quase poderíamos dizer reciclar – as memórias da guerra para uma cultura de paz. Missão difícil, missão impossível? Monique-Lisa Cohen (França) evocou a tradição talmúdica da partilha, Igor Grdina (PEN esloveno), porventura na tradição de Walter Benjamin, referiu a tarefa do passado segundo Lucien Febvre para nos preparar para o encontro com a alteridade temporal, com momentos de (re)conhecimento. A representante do Centro português interrogou-se sobre os modos de desenvolver, em épocas de não guerra (por assim dizer de paz quente) valores criados em épocas de conflito e tensão, como coragem e solidariedade – a transformar pois em coragem civil, em solidariedade social, em cidadania. Kjell Olaf Jensen (Centro norueguês e vice-presidente do comité Writers for Peace) contou uma parábola de Ismail Kadaré que revela que nada de novo se passa nas frentes de guerra para além da desolação, da destruição. Zeki Ergas (Centro suíço francês) lembrou a bomba-relógio da “guerra ecológica” e Sami Michael (Israel) fez um breve mas trágico balanço das consequências não só militares mas sociológicas e psicológicas de uma guerra que, no dizer do seu colega (não presente) David Grossman, ninguém pode ganhar. Apenas alguns exemplos entre as vozes que se fizeram ouvir.
Nas reuniões do comité Writers for Peace, o presidente Edvard Kovács (Centro esloveno) sublinhou que o PEN não pode resolver problemas políticos mas apenas incitar ao diálogo, sobretudo onde ele não existe, promover encontros e iniciativas que levem à inclusão da “voz da cultura” em resoluções políticas. Ou como na fábula segundo a qual ao perguntar-se a um mendigo se queria pão ou leite, este terá respondido que preferia molhar o pão no leite. Porque também (como lembrou o secretário do Pen Internacional, Eugene Schoulgin) um critério para avaliar governos seria analisar o modo como tratam escritores, uma vez que a nossa profissão é de risco, medido segundo o número de escritores presos e perseguidos. Se – concluiu E. Sch. – 200 anos necessários á construção da paz podem ser destruídos em 2 segundos, o papel do PEN seria juntar os estilhaços com paciência e perseverança, defendendo sobretudo culturas e nações e não regimes políticos.
A luta contra a injustiça e a discriminação, contra a calúnia e a má-fé, a repressão e o desprezo pelos direitos humanos prolongam assim, em todo o mundo e pelo quotidiano adentro, a cultura da paz traduzida pelos manifestos e apelos que foram propostos, para incentivar, por exemplo, o diálogo entre a Sérvia e o Kosovo, entre as partes até agora desavindas em Chipre, entre israelitas e palestinianos, mesmo entre a China e o Tibete.
Vimos ainda o filme de 2001 (inspirado num romance de Sami Michael) A Trumpet in the Wadi, da autoria de Lina e Slava Chaplin, que tem como cenário uma Haifa de judeus e árabes e relata uma difícil relação amorosa entre um judeu e uma árabe. Como se pode imaginar, o final não é feliz. Mas poderia ter uma leitura aberta, como as palavras de Maruša Krese no poema “Palestina, Gaza, 2001”:
Je bil to res konec sveta?
Ne, so dejali otroci
In cakali na življenje,
Ki gan iso nikoli spoznali.
Pesem slišim.
Pesem.
Veter.
[Era isso realmente o fim do mundo ?
Não, disseram crianças,
E continuaram à espera
De uma vida que nunca conheceram.
Uma canção, posso ouvi-la.
Uma canção.
O vento.]
Teresa Salema (delegada do Centro PEN português)
O texto da comunicação apresentada no encontro, no âmbito da mesa redonda do Writers for peace Committee "Uma atitude ética face à História como fonte de paz" pode ser consultado em http://penclube.no.sapo.pt/pen_portugues/relatorios/2008.03.26.relatorio.htm#com